Entrevista da Revista Folhas de Oliveira (de Frades)

Entrevista com…
Presidente da Direção da ASSOL
(Associação de Solidariedade Social de Lafões)
Dr. Carlos Rodrigues

Sendo a ASSOL uma instituição de Solidariedade Social, como vê o seu papel na actual conjuntura económica?
Nesta fase em que se vivem, na nossa sociedade, momentos de dificuldades de toda a ordem, em que, faltando a base para uma vida digna, tudo se complica, a ASSOL sente que, cada vez mais, é chamada a desempenhar o seu papel de apoio às pessoas com deficiência, em cada idade e em cada situação, muito mais agora que, no seio de suas famílias, a crise disparou. Mas o facto de se estar perante este quadro de carência só acentua o espírito de missão e visão desta IPSS, que nunca abdica de estar na primeira linha de sua ação prioritária: estar à disposição de quem dela se abeira, a pedir amparo, ajuda e o carinho que aqui se cultiva.
Assim, se a ASSOL sempre tem plena razão de existir, porque há respostas a dar, em cada um dos cinco concelhos, em que presta as suas funções, nestas horas mais difíceis não se poderá regatear, a cada um de nossos utentes, o direito a ter a sua vida, tal como ela é. Com um papel acrescido, sem dúvida, mas a ter de ser possível, custe o que custar, porque as necessidades desta gente da nossa gente bem nos merecem esse sacrifício.

Neste momento, quantos utentes tem a ASSOL?
Com a vontade de não deixar ninguém de fora da nossa esfera de ação, sempre que tal seja necessário, nas diversas valências, no ano de 2011, tínhamos 622 pessoas apoiadas, nestas áreas: intervenção precoce, projecto integrado, formação profissional, acompanhamento pós-colocação, centros de atividades ocupacionais, fóruns socioprofissionais, lar de apoio e famílias de acolhimento. Importa dizer-se que espalhamos os nossos serviços pela Sede, Oliveira de Frades, por S. Pedro do Sul, Vouzela, Tondela e Castro Daire.
Convém também informar-se que, se temos protocolos com entidades oficiais, como o Ministério da Educação, o IEFP, a Segurança Social, o POPH, entre outras, que nos permitem as verbas para cada uma destas valências, há um número muito razoável de pessoas apoiadas sem quaisquer verbas que não sejam as que saem do nosso próprio esforço financeiro. Tendo como lema que não queremos listas de espera, cada solicitação logo tem a devida resposta.
Só assim entendemos a nossa ligação à sociedade em que nos integramos. Por ser relevante, toda esta vasta ação só é possível por termos esses acordos, mas também pelos muitos outros contributos que recebemos, vindos de 234 parcerias que, no mesmo ano de 2011, tínhamos no terreno desta região alargada.

Quais são as medidas e planos de atuação da ASSOL para o ano de 2013?
A partir de um Plano de Ação e um Orçamento que foram aprovados há dias, em Assembleia Geral, a que juntamos ainda um Plano de Médio Prazo (2012/2020), também a ter merecido, na mesma altura, o apoio unânime dos nossos associados, os tempos que temos pela frente exigem-nos um forte arrojo. Assim, para além de termos proposto, o que foi aceite por todos, continuar com todos os serviços do costume, abrimos as portas a outros que possam surgir, sendo um deles – que até já tem em cima da mesa um projeto assinado, há tempos, com o Ministério da Saúde – ligado a uma futura Unidade de Apoio Continuado a doentes profundos do foro mental, com cuidados de saúde a aqueles que são já marca de nossa ação, como acabámos de dizer. Esquematizado o Plano em Atividades das
Unidades, Plano de Melhorias, de Formação, Atribuição de Responsabilidades Individuais, distribui-se por três vetores essenciais: – I – Identificação e encaminhamento atempado das pessoas potencialmente interessadas nos serviços da ASSOL; – II – Ajudas às pessoas apoiadas no processo de definição de uma visão de futuro desejado e na sua concretização; – III – Sustentabilidade, desenvolvimento futuro e melhoria contínua. Dentro destas linhas, a nossa atenção vai para a qualidade dos serviços e instalações, onde o bem estar seja a nota dominante, prevendo-se beneficiar a Sede e os demais equipamentos, avançando, se tivermos fundos para isso, com uma nova Unidade em Vouzela, com a ampliação do Centro de S. Pedro do Sul, não descurando a eficácia da frota que temos, que nos dá já muitas dores de cabeça.
Mas, como o polo dos polos da ASSOL é o das pessoas, utentes, famílias e funcionários, temos em curso mais um processo de certificação, este o da Excelência, prevendo-se que esteja conseguido em meados de 2013. Abarcando toda a vida desta Instituição, todos os Planos convergem no sentido dessa mesma excelência. Passo a passo, o futuro já está delineado no citado Plano de médio prazo. Mas só será uma realidade se não nos faltarem os meios necessários.

Como vê a sustentabilidade económica das Instituições de Solidariedade Social perante a crise que o país atravessa?
A sustentabilidade destas nossas IPSS, que são a ponte entre as necessidades sentidas e vividas e a ação que o Estado não pode esquecer, nem descurar, porque se trata de trabalhar com os setores mais vulneráveis da nossa sociedade e de cada comunidade, numa assumida responsabilização coletiva, passa pela transferência de meios ¬financeiros de que não podemos abdicar. Com uma gestão apertada, mas nunca a pôr em causa a qualidade de vida de nossos utentes, com a consciência de que vivemos uma situação de grande sufoco em verbas, sem esse dinheiro, vindo das entidades com quem temos protocolos (e quase não recebemos subsídios, mas sim aquilo que nos é devido em termos de serviços prestados), não será possível manter de pé, com dignidade, cada uma de nossas valências. Muito embora possamos dizer que temos tudo “isso” controlado, só o podemos ter na medida em que não falharem as nossas principais fontes de financiamento. Acreditando que o Estado não vai fazer perigar a vida dos nossos utentes, pelas razões que dissemos atrás, à ASSOL só cabe tentar motivar, também, os nossos parceiros para esta causa comum. Por muito corte que se apregoe, não cremos que as pessoas com deficiência possam ser alvo dessas restrições. Nem podem ser.

Como tem sido desenvolvida a cooperação entre a Instituição e entidades públicas e privadas?
A cooperação com que temos contado e que desejamos vir a manter e a ampliar, como se deduz das respostas anteriores, é das melhores. Com muita tenacidade de nossa parte, com um quadro de pessoal que nos orgulha, em ligação com nossos parceiros, com o brio das pessoas apoiadas, com o gosto que estas têm em serem, à sua maneira, úteis à comunidade envolvente, com a qualidade das respostas que encontramos no “exterior”, queremos confessar que sentimos muita alegria em termos os parceiros que nos acompanham nesta grande caminhada e responsabilidade.Sem toda essa gente amiga, muito do que fazemos não seria possível. Obrigado a todos.

Têm conseguido alcançar a aceitação e a integração das pessoas portadoras de deficiência na sociedade?
Essa é uma de nossas coroas de glória. Os nossos
utentes, na sua grande maioria, têm com as instituições que os recebem uma relação de amizade e confiança. Sentem-se parte desses respetivos projetos. Como já vimos, com mais de 230 parceiros, é visível que a integração das pessoas que apoiamos é uma realidade. Num inquérito que acabámos de realizar este ano, o grau de satisfação de 90% mostrado pelos nossos parceiros (depois de 85% em 2010 e 84% em 2004) diz tudo: se eles assim estão contentes com o contributo e integração dos nossos utentes, estes não o estão menos. Logo, a nossa resposta é bem positiva, a esse respeito. E ainda bem que assim é, porque prova de que estamos no bom caminho – o de sermos uma espécie de rotunda para o sucesso das pessoas que apoiamos.

Sendo uma associação que assenta na vertente social, quais são as principais dificuldades que têm enfrentado e quais os pontos fortes que têm permitido a longevidade e continuidade da mesma?
As nossas principais dificuldades têm a ver com a consciência de que, depois de um percurso de sucesso de quase vinte e cinco anos de atividade da ASSOL, com o mérito a ser remetido para os nossos antecessores, temos de saber ser legítimos herdeiros desse bom trabalho. E, às vezes, temos medo de o não conseguir. Nas agruras desta viagem e são algumas, esta é a hora de reafirmarmos que são muito mais os momentos de felicidade que temos vivido do que aqueles que temos sofrido. O facto de vermos a nossa gente com alegria é tudo. E isso nos basta. Pontos fortes? Tantos há nesta casa. Resumindo, só esta ideia de vermos que a ASSOL é considerada em alto nível nas nossas comunidades, de sabermos que a nossa ação é reconhecida como altamente eficaz e útil a quem de nós precisa, que os nossos colaboradores são dos mais cotados nos deixam com a noção de que essa é a nossa enorme mais valia.
Com a humildade que se impõe, mas também com o orgulho da marca ASSOL, entre os pontos fracos e fortes, estes pesam muito mais. Felizmente. A terminar, porque estamos a falar para um meio de comunicação social da Câmara Municipal, queremos agradecer esta oportunidade e, mais do que isso, a colaboração leal e franca que tem existido entre estas duas instituições, cada uma no seu campo específico e a saber qual o papel que cada uma desempenha.

Um grande bem haja por isso, em nome da ASSOL e das pessoas que apoiamos.