Utilização do PATH em Contexto Escolar

O Planeamento Centrado na Pessoa centra-se na visão de futuro desejada por cada pessoa e após esse ponto de partida procura organizar os meios e recursos necessários para alcançar essa visão. Coloca a tónica na própria pessoa, nos seus sonhos, desejos, necessidades e é com base nisso que define um plano de apoio. A pessoa, efectivamente, é o centro e o determinante dos apoios. Seguindo este princípio, o Planeamento Centrado na Pessoa é por excelência um preditor da inclusão, aplicada a qualquer contexto, inclusive o contexto escolar.
Ao aluno com Necessidades Educativas Especiais, tal como a qualquer outro aluno, assiste o direito de ver os seus sonhos considerados por aqueles que o apoiam e por toda a comunidade escolar, negociando com ele e com a respetiva família o percurso que se irá trabalhar durante a sua vida escolar. Na prática, e com base neste processo, a equipa ajuda a organizar reuniões com o aluno, família, amigos e elementos da comunidade que sejam considerados relevantes para o processo pela própria pessoa de modo a que, nestas reuniões, se conheça, se desenvolva e se implemante a visão de futuro desejada pela pessoa / aluno em causa. A equipa, juntamente com o aluno e todos aqueles que lhe são significativos, estabelecem um perfil pessoal para o aluno a partir do qual se desenvolvem programas individualizados que vão ao encontro das suas necessidades. A implementação e o sucesso do plano dependem sobretudo do compromisso de cada elemento envolvido e das suas conexões com a pessoa / aluno em causa.
A capacidade de nos sentarmos em torno de uma mesa e discutir a situação concreta daquele aluno, com ele e com os que lhe são significativos, é um bom ponto de partida, sendo quase certo que no final o caminho percorrido nos leva a um plano de ação concreto e direcionado para o futuro desejado pela pessoa, com um compromisso para a ação, envolvendo os presentes. O processo em si torna a pessoa mais envolvida consigo própria, pois toma as suas decisões e orienta o processo (autodeterminação), com a escola e com a própria comunidade.
Um dos intrumentos utilizado para este fim é o PATH (Planning Alternatives Tomorrows with Hope). O PATH é um processo constituido por 8 passos, com uma sequência definida, que permite ir visualizando o percurso pretendido entre uma situação presente e o futuro desejado. Esses passos são:
1| O sonho; 2| As metas; 3| O presente; 4| As pessoas a mobilizar; 5| As forças; 6| Planear os próximos meses; 7| Planear o próximo mês; 8| Planear o primeiro passo.
A aplicação deste instrumento exige uma preparação prévia para apoiar a pessoa a organizar um grupo de suporte que pretende que a acompanhe. O resultado que se vai obtendo é resumido graficamente num poster de grandes dimensões de modo a que se possa ir visualizando, resumindo e analisando o que se regista.
O PATH resulta num registo gráfico de grandes dimensões, cerca de 3 metros por 1,5 metros. O local de aplicação pode ser qualquer um em que a pessoa se sinta confortável. Neste caso foi na própria escola.
De seguida apresentaremos o caso de um aluno que frequenta uma escola regular, com quem foi aplicado este instrumento.

ESTUDO DE CASO
O M.A. é um jovem com necessidades educativas especiais de caráter permanente pelo que tem apoio de uma docente da educação especial e beneficia de sessões semanais de psicologia. Tem um défice cognitivo moderado. Apresenta, atualmente, alterações súbitas de humor que interferem negativamente nos relacionamentos com os outros.
A elaboração do PATH surge na sequência de várias conversas tidas entre a mãe do aluno e a docente de educação especial, que permitiram identificar a preocupação da mãe e do jovem, com as alterações bruscas de humor e a consequente instabilidade comportamental e as dificuldades que apresenta na escola.
O grupo de suporte foi formado, pela mãe, a professora de educação especial, o diretor de turma e oito colegas. Estes elementos foram previamente informados do que iria acontecer nesse encontro e formalmente convidados a participar no mesmo pelo M.A.
As facilitadoras organizaram e prepararam o espaço de acordo com as regras de utilização deste instrumento e conduziram o processo que decorreu de forma agradável e positiva.
A aplicação do PATH permitiu consciencializar uma visão de futuro (sonho) que podemos resumir do seguinte modo:
1. Os sonhos identificados pelo M.A. foram:
– Ter muitos amigos
– Ter uma namorada
– Ter um trabalho
– Ser compreendido pelos outros.
2. As metas fixadas até final do ano escolar foram:
– Partilhar brincadeiras e trabalhos com os colegas;
– Explorar várias profissões;
– Ser respeitado e aceite pelos outros.
3. Até final do período escolar a decorrer estabeleceram-se os seguintes objetivos:
– Fazer pesquisa sobre profissões;
– Estar integrado em trabalhos de grupo;
– Ter companhia no recreio;
– Descobrir os talentos de cada elemento da turma.
4. A situação atual foi caraterizada como:
– Tem alguns amigos;
– Vive com a mãe e o irmão;
– É divertido e dedicado;
– Gosta da mãe;
– É simpático e educado;
– É persistente e amigo;
– Está no 7º ano.
5. Foram identificados como recursos a mobilizar:
– A docente de educação especial;
– O diretor de turma;
– A mãe;
– Os amigos;
– A psicóloga.
6. O M.A. para desenvolver as suas forças vai:
– Pesquisar sobre profissões;
– Ter sempre um colega de carteira na sala de aula;
– Alimentar-se melhor;
– Pedir o apoio da monitora formadora;
– Colaborar com os colegas para se integrar melhor no grupo.
7. Como primeiro passo a dar foi combinado:
– Chamar o M.A. para o grupo nos intervalos e nos trabalhos;
– Ter um colega ao lado, na aula;
– Agendar e organizar o grupo a pesquisa sobre alimentação saudável
– Os amigos vão ajudar a controlar os colegas quando eles provocam o M.A.;
Os presentes comprometeram-se a:
– Os amigos e a docente de educação especial vão apoiar na pesquisa de receitas de alimentação saudável, sendo que a docente de educação especial vai lançar na escola um concurso sobre esta temática.
– A psicóloga, para além de manter o acompanhamento semanal, comprometeu-se a contactar a monitora formadora e envolve-la neste processo, de modo a proporcionar ao aluno uma primeira experiência de sensibilização a diferentes contextos profissionais.
– Os colegas vão ajudar na integração do M.A. no grupo turma, participando na aula de apresentação de talentos;
– O diretor de turma vai organizar uma aula para todos os alunos descobrirem os seus talentos e o grupo oferece como presente os talentos a cada elemento da turma. O objetivo desta atividade seria promover a autoestima do M.A, ao mesmo tempo que se pretende que todos ganhem consciência dos seus aspetos positivos e consequentemente melhorarem a sua integração na turma.

Conclusão
O PATH é uma ferramenta concebida para reforçar os princípios de inclusão, revelando-se útil na integração de crianças com necessidades educativas especiais no ensino regular. É uma ferramenta audaciosa, desafiante e orientada para a ação, revela as opções que sempre lá estiveram mas permite à pessoa a liberdade de fazer as suas escolhas.
A sua aplicação permitiu, em pouco tempo, elaborar um plano de ação para o ano letivo e a respetivas prioridades e que envolve o M. A. mas também os seus colegas, a mãe e todos os profissionais envolvidos.
A mãe mostrou nova motivação para apoiar o M. A. nesta nova fase da sua vida, porque passou a ter tarefas concretas a levar a cabo.
A docente de educação especial, envolvida no processo responsabilizou-se pela promoção de uma alimentação saudável, recorrendo ao lançamento de um concurso de receitas saudáveis na turma de M.A.
Os colegas da turma presentes neste encontro disponibilizaram-se para apoiar o M.A nos intervalos das aulas, não o deixando isolado do grupo, assim como se ofereceram para ajudar a controlar o discurso de alguns elementos da turma que gostam de desafiar o M.A. Para além disso, disponibizaram-se para o envolver sempre nos trabalhos de grupo propostos pelos professores.
Na situação descrita neste trabalho, a utilização do PATH revelou-se uma ferramenta eficaz pois permitiu consciencializar as motivações e projetos do jovem e da família. As ações planeadas envolvendo colegas e outras pessoas significativas ajudaram a melhorar o seu nível de participação e portanto a sua qualidade de vida.

Bibliografia consultada:
– Faley, M.; Forest, M.; Pearpoint, J. & Rosenberg, R. (2011). Toda a minha vida é um círculo. Edição ASSOL.
– Pearpoint, J.; O´Brien J. & Forest, M. (2009). PATH. Edição ASSOL.
– Pereira, M. (2010). O Planeamento Centrado na Pessoa. Cadernos FORMEM, 2, 56 – 67.

Artigo elaborado por:
Ana Ester Almeida; Ana Isabel Saraiva; Ana Luisa Saraiva; Sofia Ferreira; Susana Ferreira; Tânia Figueiredo; Mário Pereira